Conflito na fronteira entre Tailândia e Camboja deixa 12 mortos e agrava crise diplomática

Escalada militar ocorreu perto de templo antigo disputado pelos dois países; bombardeios atingiram civis e motivaram trocas de acusações entre os governos

A já instável fronteira entre Tailândia e Camboja voltou a ser palco de violência nesta quinta-feira (24), após confrontos armados deixarem pelo menos 12 mortos, entre eles 11 civis e um militar tailandês, além de dezenas de feridos. Os embates ocorreram nas proximidades do templo histórico Prasat Ta Muen Thom, na divisa entre a província tailandesa de Surin e a cambojana Oddar Meanchey, e marcam a pior escalada do conflito desde 2011.

Segundo as autoridades tailandesas, os confrontos foram iniciados com disparos de artilharia por parte das forças cambojanas, que atingiram áreas civis e militares em território da Tailândia. Como resposta, o Exército tailandês utilizou caças F-16 para lançar ataques aéreos e destruir um suposto alvo militar cambojano.

Foto da Internet

“Usamos o poder aéreo contra alvos militares, como planejado”, afirmou Richa Suksuwanon, porta-voz adjunto do exército tailandês.

O Ministério da Saúde da Tailândia confirmou 24 civis e sete militares feridos. Vídeos e transmissões ao vivo exibidos pela imprensa local mostraram moradores desesperados se refugiando em bunkers improvisados com sacos de areia e pneus, enquanto o som de explosões ecoava pela madrugada.

Disputa centenária volta a provocar mortes

A disputa em torno da fronteira entre Tailândia e Camboja remonta ao período colonial e envolve uma linha terrestre de 817 km, marcada por limites territoriais indefinidos e uma série de sítios históricos, como o próprio templo Prasat Ta Muen Thom. O local é motivo frequente de tensões, pois ambos os países reivindicam sua posse e valor simbólico.

O episódio desta quinta-feira ocorre após semanas de tensão crescente. Na véspera dos ataques, a Tailândia convocou seu embaixador em Phnom Penh de volta a Bangkok e expulsou o representante cambojano, em retaliação por um incidente anterior que deixou dois soldados tailandeses feridos.

Em nota oficial, as Forças Armadas da Tailândia acusaram o Camboja de brutalidade:

“O Exército tailandês condena o Camboja por usar armas para atacar civis na Tailândia. A Tailândia está pronta para proteger a soberania e o nosso povo de ações desumanas.”

Já o Ministério da Defesa do Camboja respondeu classificando a ofensiva como uma “agressão militar imprudente e brutal do Reino da Tailândia” e alegou que duas bombas aéreas foram lançadas sobre uma estrada em território cambojano. A nota do governo cambojano exige a retirada das tropas tailandesas e o fim das ações militares.

O Ministério das Relações Exteriores do Camboja afirmou que os ataques foram “sem provocação”, negou qualquer ação contra civis e responsabilizou a Tailândia pela escalada.

Até o momento, o governo cambojano não divulgou números oficiais de vítimas em seu território, mas relatos de agências internacionais como a Associated Press confirmam confrontos intensos e danos estruturais em vilarejos da região.

Crise se agrava com instabilidade política

A crise diplomática se insere num contexto político delicado. A primeira-ministra da Tailândia foi suspensa do cargo no início de julho, acusada de violações éticas justamente relacionadas à condução da política externa e à disputa territorial com o Camboja.

A instabilidade doméstica contribuiu para um ambiente de incerteza e decisões militares mais agressivas, segundo analistas da região. “Há uma tendência clara de instrumentalizar o conflito fronteiriço como forma de desviar o foco da crise interna”, aponta o pesquisador Sombat Lertchai, da Universidade de Chulalongkorn.

Preocupação regional e apelos por diálogo

A gravidade da situação provocou reações de lideranças regionais e potências próximas. O primeiro-ministro da Malásia, Anwar Ibrahim, atual presidente da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), disse estar em diálogo com representantes dos dois países e ofereceu intermediação.

“Apelamos à calma e ao diálogo. A paz regional depende da responsabilidade conjunta de todos os membros da Asean”, declarou Anwar em pronunciamento oficial.

A China, que possui fortes laços econômicos e diplomáticos com Tailândia e Camboja, também manifestou preocupação com os combates e se ofereceu como mediadora. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês afirmou que “o uso da força não resolverá disputas históricas” e que “o diálogo deve prevalecer”.

Civis em meio ao fogo cruzado

A população civil tem sido a principal vítima da disputa. Imagens captadas por canais locais mostraram moradores feridos, crianças em pânico e casas destruídas. Em entrevista ao Serviço Público de Radiodifusão da Tailândia (TPBS), uma moradora relatou o pânico durante os bombardeios:

“Quantos tiros foram disparados? São incontáveis.”

ONGs de direitos humanos e entidades internacionais também passaram a monitorar a situação e alertam para o risco de uma escalada descontrolada se não houver cessar-fogo imediato.

“Os ataques a áreas civis são uma grave violação do direito internacional humanitário”, afirmou em nota a organização Human Rights Watch.

Relembre o histórico de confrontos

Este não é o primeiro episódio violento envolvendo a região disputada. Em 2011, os dois países travaram uma batalha que durou mais de uma semana e deixou dezenas de mortos. Desde então, surtos esporádicos de violência têm ocorrido, mas a maioria dos conflitos vinha sendo contida por negociações multilaterais.

A morte de um soldado cambojano em maio deste ano reacendeu a tensão, que agora evoluiu para o confronto mais letal dos últimos 13 anos.

Diplomacia sob teste

Especialistas afirmam que o momento é decisivo para o futuro das relações bilaterais entre Tailândia e Camboja. A escalada atual coloca à prova a capacidade da Asean de atuar como força pacificadora em sua própria região, e também testa o papel da China como agente estabilizador no sudeste asiático.

“É um momento em que a diplomacia precisa ser mais forte que os canhões. Um novo ciclo de guerra na região só trará perdas para todos os lados”, conclui o analista político cambojano Sophal Rithy.

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