Famílias denunciam falhas na saúde de Boquim que afetam pacientes neurodivergentes.

Famílias atípicas de Boquim têm recorrido cada vez mais às redes sociais para denunciar falhas e morosidade nos serviços públicos de saúde voltados ao atendimento especializado. Segundo os relatos, o problema se agravou nos últimos meses após a redução da equipe responsável, comprometendo diretamente a assistência a crianças e jovens com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e outros perfis neurodivergentes.
De acordo com as denúncias, a diminuição no número de profissionais impactou a qualidade dos atendimentos e dificultou o acompanhamento contínuo, considerado essencial para o desenvolvimento dos pacientes. Entre as principais queixas está o atendimento psicológico, que deveria ser individual, mas vem sendo realizado em grupo, com até 10 pacientes de idades diferentes ao mesmo tempo. As sessões duram cerca de 20 minutos e acontecem de forma quinzenal. As filas de espera também são apontadas como extensas, inclusive para serviços como fisioterapia. Ainda segundo as famílias, o espaço destinado a esse tipo de atendimento não possui estrutura adequada para receber crianças menores nem atende às condições mínimas exigidas para um atendimento de qualidade. Para os familiares, essa realidade compromete a eficácia do tratamento e desconsidera as necessidades específicas de cada caso.
Outro ponto crítico é a limitação no número de sessões, que estaria restrito a cerca de 10 atendimentos por paciente. Além disso, há falhas no acompanhamento multidisciplinar, já que os atendimentos de Psicologia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional ocorrem em ciclos separados. O intervalo entre esses ciclos pode durar meses, o que, segundo os relatos, faz com que avanços conquistados sejam perdidos ao longo do tempo.
Diante da situação, uma família recorreu à Justiça. Em decisão assinada no dia 21 de janeiro de 2026, a juíza Marina de Almeida Menezes Barbosa determinou, em caráter de urgência, que o município garantisse o tratamento multidisciplinar. Na decisão, a magistrada foi direta ao apontar falhas da gestão: “É patente o descaso da administração pública com a saúde da criança, que goza de prioridade absoluta por força constitucional e do Estatuto da Criança e do Adolescente (Art. 227 da CF88 e Art. 4º do ECA). A inércia injustificada do Município frente a uma decisão judicial que visa garantir o desenvolvimento neuropsicomotor de um menor é inaceitável e atenta contra a dignidade da Justiça.”
A decisão prevê multa diária de R$ 500 em caso de descumprimento. Segundo familiares, o município recorreu. Enquanto isso, diante da falta de respostas efetivas, os próprios responsáveis começaram a se mobilizar coletivamente.
Como resposta direta à ausência de assistência adequada, foi criada a AFAN – Associação de Famílias Neurodivergentes de Boquim. A iniciativa surge como uma tentativa de organização e fortalecimento das famílias, buscando apoio por meio de editais, parcerias e políticas públicas que possam complementar ou suprir as falhas do poder público.
A criação da associação representa um passo importante para a comunidade, não apenas como instrumento de cobrança, mas também como rede de apoio entre famílias que enfrentam desafios semelhantes. A AFAN pode contribuir para dar visibilidade à causa, ampliar o acesso a direitos e promover ações que garantam melhores condições de acompanhamento para pessoas neurodivergentes no município.
A mobilização expõe um cenário preocupante, em que famílias tentam suprir, por conta própria, lacunas deixadas pelo poder público em um serviço essencial para o desenvolvimento de crianças que dependem de acompanhamento contínuo.
A reportagem tentou contato com a gestão municipal de Boquim para obter um posicionamento sobre as denúncias, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria. O espaço permanece aberto para eventuais esclarecimentos.



