Dia das Crianças chama atenção para o uso de celulares na infância

O acesso a celulares, tablets, videogames e outros dispositivos digitais faz parte da rotina de muitas famílias brasileiras, inclusive na infância. Embora a tecnologia possa contribuir para a aprendizagem, o entretenimento e a comunicação, o uso excessivo ou sem acompanhamento pode prejudicar hábitos importantes para o desenvolvimento infantil, como o sono, as brincadeiras, a atividade física e a convivência familiar. No Dia das Crianças, celebrado em 12 de outubro, o tema chama a atenção para a necessidade de estabelecer limites e incentivar uma relação mais equilibrada com o ambiente digital.

As recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) destacam que o tempo de exposição às telas deve considerar a idade da criança e ser acompanhado pelos pais ou responsáveis. A entidade também orienta que as famílias observem os conteúdos acessados e mantenham o diálogo sobre segurança e comportamento na internet.

Tecnologia faz parte da infância, mas exige acompanhamento

Vídeos, jogos eletrônicos, desenhos animados e aplicativos educativos estão entre os conteúdos que atraem a atenção das crianças. Em determinadas situações, esses recursos podem estimular a curiosidade, facilitar o acesso à informação e oferecer oportunidades de aprendizagem.

O desafio aparece quando o uso dos dispositivos passa a ocupar grande parte do dia, substituindo atividades fundamentais para o desenvolvimento. Brincar ao ar livre, conversar com outras crianças, praticar esportes, desenhar, ler e participar de atividades em família são experiências que também contribuem para a formação infantil.

De acordo com a SBP, a utilização das tecnologias digitais precisa ser orientada para evitar que as telas interfiram em aspectos importantes da rotina. A entidade recomenda que pais e responsáveis participem da experiência digital dos filhos, estabelecendo regras e acompanhando o conteúdo consumido.

A discussão não significa que a tecnologia deva ser completamente afastada da vida de crianças e adolescentes. A proposta é encontrar um equilíbrio entre as oportunidades oferecidas pelo ambiente digital e outras experiências necessárias para uma infância saudável.

Quanto tempo as crianças podem ficar diante das telas?

A Sociedade Brasileira de Pediatria atualizou, em 2024, suas orientações sobre saúde digital e reforçou recomendações para diferentes faixas etárias. Os limites indicados pela entidade ajudam as famílias a organizar a rotina e a reduzir a exposição excessiva.

Entre as principais recomendações estão:

  • Menores de 2 anos: evitar a exposição às telas, inclusive de forma passiva.
  • De 2 a 5 anos: limitar o tempo de tela a aproximadamente 30 minutos a uma hora por dia, sempre com supervisão dos responsáveis.
  • De 6 a 10 anos: limitar o uso a uma ou duas horas por dia, no máximo, com acompanhamento.
  • De 11 a 18 anos: limitar o tempo recreativo de telas a duas ou três horas por dia e evitar passar a noite conectado ou jogando.

As orientações são da Sociedade Brasileira de Pediatria e podem ser consultadas no documento Menos telas, mais saúde — atualização 2024.

Mais do que observar o relógio, os responsáveis precisam considerar o que a criança faz no dispositivo, quais conteúdos acessa e se o uso está prejudicando outras atividades. Uma criança que deixa de dormir adequadamente, brincar ou cumprir suas responsabilidades para permanecer conectada precisa de atenção e de ajustes na rotina.

Sono, brincadeiras e convivência também precisam de espaço

O tempo diante das telas não deve ocupar o espaço destinado ao descanso, à atividade física e às relações presenciais. Quando celulares e tablets são utilizados sem limites, pode ficar mais difícil manter horários regulares para dormir, realizar refeições tranquilamente e participar de atividades fora do ambiente digital.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que crianças pequenas tenham oportunidades frequentes de movimento, brincadeiras e sono de qualidade. Para crianças de 3 e 4 anos, por exemplo, a entidade orienta pelo menos 180 minutos de atividade física de diferentes intensidades ao longo do dia, incluindo 60 minutos de intensidade moderada a vigorosa. Para essa faixa etária, o tempo sedentário diante de telas não deve ultrapassar uma hora diária, sendo preferível menos tempo.

A OMS também recomenda evitar telas para bebês e crianças de 1 ano. Para crianças de 2 anos, a orientação é limitar o tempo sedentário diante das telas a, no máximo, uma hora por dia, sendo melhor reduzir esse período.

Essas recomendações reforçam que o desenvolvimento infantil depende de uma combinação de experiências. Correr, pular, brincar com outras crianças, ouvir histórias e explorar o ambiente são atividades que precisam fazer parte do cotidiano.

A convivência familiar também merece atenção. Momentos de conversa, refeições compartilhadas e brincadeiras sem dispositivos podem fortalecer os vínculos entre crianças e adultos. Por isso, estabelecer períodos sem telas para toda a família pode ser uma maneira prática de incentivar hábitos mais saudáveis.

Conteúdo acessado também importa

O tempo de uso é apenas uma parte da discussão. A qualidade do conteúdo e a segurança durante a navegação também precisam estar entre as preocupações dos responsáveis.

Na internet, crianças podem encontrar informações inadequadas para a idade, publicidade, desafios perigosos, abordagens de desconhecidos e conteúdos que incentivam comportamentos prejudiciais. Por isso, a supervisão deve acompanhar o desenvolvimento da autonomia digital.

Pais e responsáveis podem utilizar configurações de segurança, controles parentais e filtros de conteúdo, mas essas ferramentas não substituem a conversa. É importante explicar às crianças por que determinados conteúdos não são apropriados e orientá-las a procurar um adulto de confiança quando algo causar medo, desconforto ou dúvida.

Também é necessário conversar sobre privacidade. Informações pessoais, endereço, localização, rotina escolar, fotografias e vídeos não devem ser compartilhados indiscriminadamente. As crianças precisam aprender que nem todas as pessoas encontradas no ambiente virtual são quem dizem ser.

A SBP destaca a importância da mediação parental e do diálogo contínuo para estimular o uso seguro e responsável das tecnologias. As regras devem ser claras e adequadas à idade, com participação dos responsáveis e revisão conforme a criança amadurece.

Redes sociais e a pressão sobre crianças e adolescentes

Além dos jogos e vídeos, as redes sociais ampliam os desafios da infância conectada. A comparação com outras pessoas, a busca por aprovação e a exposição a comentários ofensivos podem tornar o ambiente digital uma fonte de pressão para crianças e adolescentes.

Outro ponto de atenção é a exposição da imagem dos próprios filhos pelos adultos. Fotografias, vídeos e informações sobre a rotina infantil publicados sem cuidado podem comprometer a privacidade e permanecer disponíveis por muito tempo.

Antes de publicar uma imagem, os responsáveis devem avaliar se ela expõe informações pessoais, coloca a criança em situação constrangedora ou pode ser utilizada de maneira inadequada por terceiros. Sempre que possível e de acordo com a maturidade, é importante considerar também a vontade da própria criança.

O relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), Childhood in a Digital World, publicado em 2025, aborda as oportunidades e os riscos da vida digital para crianças. O documento destaca que a tecnologia pode favorecer a aprendizagem e o desenvolvimento de habilidades, mas seus efeitos dependem também dos conteúdos, das experiências e das condições de acesso.

A discussão, portanto, não deve se limitar à quantidade de horas conectadas. É necessário avaliar se o ambiente digital oferece experiências adequadas, seguras e compatíveis com a etapa de desenvolvimento de cada criança.

Como estabelecer limites sem transformar a tecnologia em motivo de conflito

A definição de regras pode ser mais eficiente quando acontece de forma gradual, com explicações simples e consistência. Retirar o dispositivo de maneira abrupta, sem apresentar alternativas ou explicar os motivos, pode aumentar a resistência, especialmente quando a tela já ocupa uma parte importante da rotina.

Uma possibilidade é construir um acordo familiar com horários para o uso de celulares, videogames e tablets. O combinado deve prever momentos para tarefas escolares, refeições, descanso, brincadeiras e convivência com outras pessoas.

Outra medida recomendada é evitar dispositivos durante as refeições e interromper o uso antes de dormir. A SBP orienta que crianças e adolescentes se desconectem de uma a duas horas antes do horário de sono.

Os adultos também têm papel importante nesse processo. Quando pais e responsáveis permanecem constantemente nos celulares durante conversas ou momentos familiares, a criança pode ter dificuldade para compreender por que precisa seguir limites diferentes.

Algumas atitudes podem ajudar a tornar a rotina mais equilibrada:

  • Reservar horários para brincadeiras sem dispositivos eletrônicos.
  • Incentivar atividades físicas, passeios e contato com a natureza.
  • Escolher conteúdos adequados à idade e, sempre que possível, assistir ou jogar junto com a criança.
  • Manter celulares longe da mesa durante as refeições.
  • Evitar que dispositivos sejam a única estratégia para acalmar ou entreter a criança.
  • Conversar regularmente sobre privacidade, respeito e segurança na internet.
  • Dar exemplo com o próprio comportamento digital.

Se a criança demonstrar irritabilidade frequente, dificuldades para dormir ou perda de interesse por outras atividades, vale observar a rotina e buscar orientação profissional quando necessário. Esses sinais não significam, isoladamente, que exista um problema relacionado às telas, mas podem indicar a necessidade de avaliar o contexto.

Dia das Crianças é oportunidade para repensar hábitos

O Dia das Crianças costuma ser marcado por presentes, passeios e atividades recreativas. A data também pode servir como oportunidade para que as famílias reflitam sobre o tipo de experiência que desejam proporcionar durante a infância.

Uma brincadeira em uma praça, uma tarde de jogos de tabuleiro, a leitura de uma história, uma atividade esportiva ou simplesmente um período de conversa podem criar oportunidades de interação sem depender de equipamentos eletrônicos.

Não se trata de responsabilizar exclusivamente os pais por todos os desafios do ambiente digital. Escolas, plataformas, poder público e sociedade também têm responsabilidades na construção de espaços seguros e adequados para crianças e adolescentes.

A tecnologia continuará presente na educação, no entretenimento e nas relações sociais. O objetivo é preparar crianças e jovens para utilizá-la com consciência, sem deixar de lado experiências fundamentais para o desenvolvimento físico, emocional e social.

Neste 12 de outubro, o convite é para que as famílias encontrem espaço para brincar, conversar e compartilhar momentos. Em uma infância cada vez mais conectada, o equilíbrio entre o mundo digital e as experiências fora das telas pode fazer diferença na qualidade do tempo vivido pelas crianças.

Fontes consultadas

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