Opinião: Ao tentar diminuir Valmir, Fábio Mitidieri pode ter cometido um erro político maior do que imaginava

Imagem gerada com IA

A política é feita de escolhas. E, entre elas, talvez nenhuma seja tão delicada quanto a escolha das palavras.

Nos últimos dias, um recorte de uma fala do governador Fábio Mitidieri ganhou força nas redes sociais. Ao fazer referência a Valmir de Francisquinho, afirmou que Sergipe não quer um “marchante”, mas um governador.

Não pretendo aqui atacar o governador. A proposta é analisar a fala, o contexto e o efeito político que ela produziu.

Na política, não basta ter razão. É preciso saber comunicar.

Vivemos a era dos cortes. Um discurso de dez minutos pode ser reduzido a dez segundos — e esses dez segundos podem definir a percepção de milhares de pessoas. Uma frase mal construída, uma palavra mal colocada ou até uma vírgula fora do lugar podem transformar uma estratégia política em um problema.

Ao tentar explorar o passado de Valmir como marchante e associá-lo às visitas às feiras livres, onde costuma amolar facas, Fábio Mitidieri buscou estabelecer uma diferença entre o adversário e aquilo que considera o perfil adequado para governar Sergipe.

Mas há um problema nessa estratégia.

Quando você tenta diminuir alguém pela profissão que exerceu, corre o risco de diminuir também todos aqueles que exercem a mesma profissão.

Marchante não é xingamento.

Marchante é trabalhador.

É alguém que acorda cedo, enfrenta sol, chuva, feira, mercado e todos os desafios de quem precisa trabalhar diariamente para colocar comida na mesa.

E é justamente aí que a fala pode ter produzido um efeito político contrário ao desejado.

Porque Valmir não é apenas Valmir.

Para uma parcela do eleitorado, ele representa a história do homem que saiu de uma profissão simples, entrou na política e conseguiu chegar a espaços de poder.

Quando se tenta diminuir a origem de um adversário, pode-se acabar valorizando exatamente aquilo que o tornou popular.

O governador poderia atacar Valmir por suas decisões políticas. Poderia questionar sua gestão, suas propostas, seus resultados ou suas alianças. Isso faz parte do jogo democrático.

Mas transformar a profissão de um homem em argumento para dizer que ele não estaria à altura de governar é uma escolha que merece ser questionada.

Afinal, quem decide quem pode governar não é a profissão que alguém exerceu no passado.

É o voto.

E talvez esse seja o ponto que a política não pode esquecer: o eleitor sergipano pode até escolher entre projetos diferentes, mas dificilmente aceitará que o trabalho honesto de milhares de pessoas seja tratado como algo menor.

No fim, a tentativa de desqualificar um adversário pode acabar produzindo o efeito inverso.

Em vez de diminuir o marchante, pode ter lembrado Sergipe de que todo governador, antes de ocupar um palácio, também é filho de uma história.

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