FMI alerta que custo da dívida pública no Brasil é ‘extremamente elevado’ e recomenda contenção de gastos

Relatório do Monitor Fiscal prevê alta da dívida bruta para 91,4% do PIB em 2025 e quase 100% até 2030; organismo defende eficiência nos gastos e redução de despesas públicas

O Fundo Monetário Internacional (FMI) fez um alerta contundente sobre a situação fiscal brasileira. Durante entrevista coletiva nesta quarta-feira (15), o diretor do Departamento de Assuntos Fiscais do organismo, Vitor Gaspar, afirmou que o “custo da dívida pública no Brasil é extremamente elevado”, destacando que o país precisa melhorar a composição e a eficiência dos gastos do governo para evitar uma escalada ainda maior do endividamento.

Foto: Divulgação da Internet

As declarações foram dadas durante a apresentação do relatório do Monitor Fiscal, documento semestral do FMI que avalia a situação das contas públicas dos países-membros. Segundo as estimativas do relatório, a dívida pública bruta do Brasil deve saltar de 87,3% do PIB em 2024 para 91,4% em 2025, chegando a 98,1% do PIB até 2030, caso não haja uma reversão consistente nas políticas de gasto.

“O custo da dívida pública no Brasil é extremamente elevado”, afirmou Gaspar. “O Brasil precisa melhorar a composição e a eficiência dos gastos do governo.”

Trajetória preocupante da dívida

De acordo com o FMI, o ritmo de crescimento da dívida brasileira é motivo de atenção e exige medidas estruturais. Gaspar enfatizou que a trajetória da dívida só deve se estabilizar no fim da década atual, mas que seria “importante reverter a trajetória para baixo o quanto antes”.

A recomendação central do organismo é que o Brasil redirecione a trajetória dos gastos públicos e adote uma política fiscal mais prudente, capaz de conter o aumento da dívida e reduzir o custo de rolagem.

“Recomendamos que o Brasil redirecione a trajetória de gastos públicos para baixo”, acrescentou o diretor do FMI.

Impacto dos juros e pressão sobre as contas públicas

Gaspar destacou ainda que a alta acentuada da taxa de juros no Brasil tem contribuído de forma significativa para o aumento do custo da dívida. Desde outubro de 2020, quando a taxa Selic atingiu o piso histórico de 2% ao ano, o país passou por dois ciclos de elevação de juros — que levaram a taxa básica a 15% atualmente, segundo as estimativas utilizadas no relatório do FMI.

Essa elevação dos juros, explicou o diretor, eleva o custo de financiamento do governo e amplia o peso dos encargos da dívida sobre o orçamento público.

“O Brasil é um dos países onde a taxa de juros aumentou de forma mais acentuada e o impacto na dívida pública é considerável”, afirmou Gaspar.

O cenário, segundo o FMI, impõe desafios adicionais à política fiscal brasileira, que precisa conciliar o ajuste das contas públicas com a manutenção de investimentos e programas sociais.

Recomendação do FMI: eficiência e reequilíbrio fiscal

Para o Fundo, o Brasil deve concentrar esforços na melhoria da eficiência do gasto público e na revisão da estrutura orçamentária. O relatório do Monitor Fiscal cita que despesas obrigatórias em áreas como previdência e funcionalismo, somadas ao elevado custo dos juros, reduzem o espaço fiscal para investimentos produtivos e políticas de crescimento.

Gaspar observou que reformas estruturais — como a modernização do sistema tributário e a revisão de subsídios e renúncias fiscais — são essenciais para que o país recupere sua credibilidade fiscal e volte a crescer de forma sustentável.

O FMI também reforça a importância de regras fiscais claras e críveis, que deem previsibilidade às finanças públicas e contribuam para reduzir o prêmio de risco cobrado nos títulos da dívida.

Reforma tributária e avaliação do FMI

Durante a entrevista, Gaspar foi questionado sobre a reforma do imposto de renda proposta pelo governo brasileiro, que prevê isenção para trabalhadores com renda de até R$ 5 mil mensais. Ele elogiou a iniciativa e classificou a preocupação do governo com o sistema tributário como “correta”, embora tenha ressaltado que o FMI ainda aguardará mais detalhes para uma avaliação completa.

“Estamos nos envolvendo com as autoridades brasileiras e acreditamos que a preocupação com o sistema tributário é correta. Vamos avaliar melhor quando tivermos uma visão mais específica dos detalhes”, concluiu.

Desafios fiscais e credibilidade internacional

O Monitor Fiscal ressalta que o Brasil enfrenta uma das maiores cargas de juros reais do mundo, o que aumenta a vulnerabilidade fiscal e compromete a capacidade do Estado de investir em áreas estratégicas.

Com uma taxa de juros média muito superior à observada em economias emergentes de porte similar, o país destina uma fatia expressiva do orçamento ao pagamento de juros, o que limita o espaço para políticas públicas de longo prazo.

Analistas internacionais avaliam que o alerta do FMI reforça a necessidade de o Brasil retomar a disciplina fiscal e buscar o equilíbrio entre responsabilidade orçamentária e crescimento econômico.

Perspectivas até 2030

Se as projeções do FMI se confirmarem, o Brasil poderá atingir em 2030 uma dívida bruta equivalente a quase 100% do PIB, o que colocaria o país entre os mais endividados do mundo em proporção à sua economia.

O Fundo, no entanto, reconhece que o país possui fortes instituições fiscais e monetárias, como o Banco Central independente e o novo arcabouço fiscal, que podem contribuir para estabilizar a dívida no médio prazo, desde que acompanhados de reformas consistentes e controle do gasto corrente.

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