A água em Sergipe virou uma entidade mística. Uma lenda urbana. Quase um Pokémon raro. Dizem que existe, mas ninguém vê. Quando aparece, é num lampejo, num fiapo, num filete tímido que mais parece estar pedindo desculpas por incomodar.

Outro dia acordei otimista, o que já foi meu primeiro erro. Fui até a pia, girei a torneira com a confiança de quem acredita em finais felizes. A resposta veio imediata: um suspiro rouco, aquele som inconfundível de quem desistiu da vida. Era a água me dizendo: “Hoje não, querido. Hoje estou off.”
E assim seguimos, vivendo num estado paralelo onde o futuro prometido é tão real quanto unicórnios. As propagandas falam de tecnologia, avanço, modernização. Mostram drones, internet rápida, futuro brilhante. A única coisa que realmente brilha na minha casa é a pia seca refletindo minha cara de trouxa.
Enquanto o sergipano faz malabarismo pra economizar até a última gota, Feira Nova e Gararu resolveram lembrar ao estado que, sim, pessoas precisam de água. E não, água não é item opcional como assinatura de streaming. São manifestações tão repetidas que já deveriam ter cartão fidelidade. A décima reclamação ganha um galão grátis.
Mas o ápice da ópera cômica vem quando olhamos para a Iguá. A empresa estava animadíssima no tal ritmo do “precas”. Uma alegria tão grande que quase dava vontade de perguntar se eles estavam bebendo a água que falta na casa da gente. Copinho pra cá, borrifador pra lá, uma coreografia digna de bloquinho. Se hidratando mais que uma samambaia em dia de chuva.
Enquanto isso, o povo? Ah, o povo! O povo pode esperar. Afinal, esperar é tradição. Já esperamos por água, por obra, por solução, por explicação. Esperar virou hábito, virou hobbie, virou esporte olímpico. O sergipano já deveria ganhar medalha por resistência à secura.
A verdade é que estamos tão acostumados a esse roteiro que já dá pra adivinhar as falas, os discursos, as promessas, a próxima propaganda cheia de efeitos especiais. Só não dá pra adivinhar quando a água volta, porque esse suspense é digno de série com 20 temporadas.
E assim a vida segue. Sem água, mas cheia de ironias. Cheia de contas pagas por serviços não prestados. Cheia de paciência gasta e piadas prontas. Porque no final, quando falta água, sobra mesmo é sarcasmo.



