
Fazendas de cliques podem manipular debates e influenciar eleitores nas eleições
Uma estrutura conhecida como ‘fazenda de cliques’ ou ‘fazenda de bots’ voltou ao centro do debate sobre manipulação digital e eleições após a polícia da Bolívia localizar equipamentos ligados a uma rede de perfis automatizados em endereço associado ao consultor político argentino Fernando Cerimedo. O caso chama atenção para o uso de contas falsas e sistemas automatizados capazes de gerar artificialmente curtidas, comentários, compartilhamentos e hashtags, criando a impressão de que determinado assunto possui grande apoio popular.
Segundo informações divulgadas pela Agência Brasil, a estrutura foi encontrada durante investigações realizadas na Bolívia. Cerimedo foi preso no país sob acusação relacionada a um caso de tentativa de feminicídio, acusação que é contestada por sua defesa.
Além do caso específico, a descoberta reacendeu uma discussão que ganha importância em ano eleitoral: até que ponto o engajamento visto nas redes sociais representa uma manifestação espontânea da população e quanto dele pode ser resultado de operações coordenadas?
Especialistas ouvidos pela Agência Brasil explicam que as chamadas fazendas de bots podem ser utilizadas para impulsionar artificialmente determinados assuntos, ampliar ataques contra adversários, defender figuras públicas e fazer conteúdos alcançarem usuários reais.
O que é uma fazenda de cliques?
Uma fazenda de cliques é uma estrutura organizada para produzir artificialmente interações nas plataformas digitais. Ela pode utilizar celulares, computadores, chips e milhares de contas para executar ações coordenadas.
Essas contas podem curtir publicações, comentar, compartilhar conteúdos, repetir mensagens e impulsionar hashtags em um curto intervalo de tempo. O objetivo é aumentar artificialmente os números de uma publicação e criar a aparência de uma mobilização espontânea.
Na prática, quando milhares de perfis realizam ações semelhantes ao mesmo tempo, os sistemas das plataformas podem identificar aquele conteúdo como relevante ou em crescimento. Com isso, a publicação pode receber maior visibilidade e alcançar pessoas que não fazem parte da rede inicial.
É nesse momento que uma operação artificial pode ultrapassar os limites da própria fazenda de bots e atingir usuários reais.
O pesquisador Reynaldo Aragon explicou à Agência Brasil que essas estruturas podem produzir artificialmente volume e velocidade nas redes sociais. A repetição de expressões, hashtags e conteúdos semelhantes ajuda a criar a percepção de que determinado assunto ganhou força de maneira natural.
O problema é que, para quem observa apenas os números, pode ser difícil identificar se milhares de interações representam pessoas reais expressando suas opiniões ou uma ação coordenada.
Como a manipulação pode chegar aos eleitores
A influência de uma fazenda de cliques não depende apenas de convencer diretamente as pessoas que recebem as mensagens.
O primeiro objetivo pode ser gerar um impulso artificial. Depois, o conteúdo passa a circular entre usuários reais, que podem compartilhá-lo acreditando que se trata de um assunto popular, relevante ou amplamente discutido.
Esse processo pode ser especialmente perigoso durante períodos eleitorais, quando campanhas políticas disputam atenção diariamente nas redes sociais.
Uma hashtag impulsionada artificialmente, por exemplo, pode passar a aparecer entre os assuntos mais comentados. Um vídeo com números elevados de compartilhamentos pode transmitir uma impressão de popularidade. Uma sequência de comentários semelhantes pode fazer parecer que existe um consenso em torno de determinado candidato ou tema.
O cientista político Alexandre Arns Gonzales explicou que os ambientes digitais tendem a dar maior visibilidade a conteúdos que registram altos índices de engajamento. Por isso, operações coordenadas podem tentar alimentar artificialmente essas métricas para promover ataques ou defesas relacionadas a candidatos e assuntos políticos.
O risco, portanto, não está apenas na publicação original. A preocupação é com o efeito que ela pode produzir depois de entrar no fluxo normal de informações consumidas por usuários reais.
Perfis falsos e comportamento coordenado
Nem toda ação coordenada nas redes sociais é irregular ou representa manipulação.
Partidos políticos, movimentos sociais, organizações, empresas e grupos de cidadãos podem convocar seus apoiadores para utilizar uma determinada hashtag ou participar de uma campanha digital. Essa mobilização pode envolver pessoas reais e ocorrer de forma legítima.
O problema surge quando há uso de identidades falsas, automação disfarçada ou estruturas criadas para simular uma participação popular inexistente.
Uma rede pode utilizar milhares de contas aparentemente independentes, mas controladas por uma mesma organização. Essas contas podem publicar as mesmas mensagens, agir nos mesmos horários e interagir entre si para aumentar artificialmente os números de determinados conteúdos.
A dificuldade está justamente em diferenciar uma mobilização legítima de uma operação inautêntica.
Por isso, a análise não depende apenas do conteúdo publicado. Plataformas e investigadores podem observar padrões de comportamento, como a criação simultânea de contas, a repetição de mensagens idênticas, a atuação sincronizada e relações artificiais entre perfis.
Por que eleições são um alvo
Durante uma eleição, a disputa pela atenção do eleitor é intensa. Redes sociais se transformam em espaços fundamentais para a divulgação de propostas, debates políticos, críticas e campanhas.
Nesse cenário, a manipulação de métricas pode ser utilizada para tentar alterar a percepção pública.
Uma operação coordenada pode, por exemplo, criar artificialmente a impressão de que um candidato está sendo amplamente rejeitado ou apoiado. Também pode tentar impulsionar uma informação falsa antes que ela seja desmentida ou inundar uma publicação com comentários para desviar a discussão.
O objetivo nem sempre é fazer alguém acreditar imediatamente em uma mentira. Em alguns casos, a estratégia pode ser aumentar a confusão, gerar desconfiança ou criar uma sensação de polarização maior do que aquela existente fora das redes.
Quando um usuário é exposto repetidamente a uma mesma narrativa, em diferentes perfis e plataformas, pode passar a acreditar que se trata de uma opinião predominante.
Por isso, especialistas alertam que números elevados de curtidas, comentários e compartilhamentos não devem ser interpretados automaticamente como prova de apoio popular.
Como identificar sinais de possível manipulação
Para o usuário comum, não existe uma fórmula capaz de confirmar imediatamente se uma publicação foi impulsionada por bots. Mas alguns sinais podem despertar atenção.
Comentários praticamente idênticos publicados por diferentes perfis, contas sem histórico de atividade, grande quantidade de mensagens em poucos minutos e perfis criados recentemente são alguns elementos que podem indicar comportamento artificial.
Outro sinal é a repetição excessiva de determinadas hashtags ou frases sem relação direta com a publicação original.
Também é recomendável observar quem está compartilhando uma informação. Perfis sem foto, com poucos dados pessoais ou que publicam apenas conteúdos políticos podem merecer uma análise mais cuidadosa.
Nada disso, isoladamente, prova a existência de uma operação coordenada. No entanto, a combinação de vários desses elementos pode indicar a necessidade de cautela.
Antes de compartilhar uma informação, o usuário deve procurar a fonte original, verificar se veículos jornalísticos confiáveis também publicaram o conteúdo e buscar dados oficiais quando o assunto envolver eleições, pesquisas, decisões judiciais ou informações sobre candidatos.
O desafio das plataformas digitais
As grandes plataformas de tecnologia possuem sistemas capazes de identificar parte das atividades consideradas suspeitas. Empresas como Meta, Google e TikTok já adotam políticas contra redes de comportamento inautêntico coordenado.
Mesmo assim, o combate é complexo.
Operações podem utilizar diferentes equipamentos, conexões, contas antigas ou até pessoas reais contratadas para realizar interações. Quanto mais sofisticada for a estrutura, maior pode ser a dificuldade para identificar o comportamento artificial.
Outro desafio é a velocidade. Uma campanha de desinformação pode alcançar milhares ou milhões de pessoas antes que uma plataforma conclua a investigação e tome alguma medida.
Por isso, o monitoramento contínuo é considerado importante, especialmente durante o período eleitoral.
No Brasil, o Tribunal Superior Eleitoral passou a exigir, para as Eleições de 2026, planos de conformidade de plataformas digitais que tenham papel relevante na circulação de conteúdo político-eleitoral. A regulamentação prevê medidas voltadas à prevenção e mitigação de riscos à integridade do processo eleitoral, incluindo mecanismos para identificar atividades automatizadas e redes de comportamento inautêntico coordenado.
O caso envolvendo Fernando Cerimedo
A localização da estrutura de bots na Bolívia ocorreu em meio às investigações relacionadas a Fernando Cerimedo, consultor político argentino que já atuou em campanhas e ambientes digitais de lideranças da direita na América Latina.
A prisão de Cerimedo por suspeita de envolvimento em um atentado contra a ativista boliviana Nadia Beller foi noticiada por veículos internacionais. A defesa do consultor nega participação no crime e sustenta que ele é alvo de uma armação.
Segundo a Agência Brasil, Cerimedo também ganhou notoriedade no Brasil após participar de debates e ações relacionadas à contestação do resultado das eleições presidenciais de 2022.
A investigação sobre o material encontrado no endereço ligado ao consultor poderá ajudar as autoridades bolivianas a esclarecer a finalidade e o funcionamento da estrutura.
Independentemente do resultado desse caso específico, a discussão sobre fazendas de cliques evidencia um desafio cada vez maior para democracias de diferentes países.
O impacto sobre a democracia
As redes sociais ampliaram a capacidade de qualquer pessoa participar do debate público. Ao mesmo tempo, abriram espaço para mecanismos capazes de simular artificialmente essa participação.
Uma operação coordenada pode fazer uma minoria parecer maioria. Pode transformar um assunto pouco relevante em um tema aparentemente dominante e aumentar a circulação de informações falsas ou descontextualizadas.
Por esse motivo, o combate à manipulação digital não depende apenas das plataformas e das autoridades.
A educação digital também se tornou uma ferramenta importante. Quanto mais o usuário compreende como funcionam os algoritmos, as métricas e as operações coordenadas, menor tende a ser a chance de que números artificiais sejam confundidos com opinião pública.
Em períodos eleitorais, a atenção precisa ser redobrada.
Uma curtida não significa necessariamente apoio popular. Um comentário pode não representar uma pessoa real. Uma hashtag entre os assuntos mais discutidos pode ter recebido impulso artificial.
A principal recomendação é desconfiar de informações que provocam reações imediatas e buscar fontes independentes antes de compartilhar.
No ambiente digital, o debate político pode ser influenciado não apenas por quem tem mais eleitores ou argumentos, mas também por quem consegue chamar mais atenção.
É justamente nesse ponto que as fazendas de cliques representam um risco: elas podem tentar transformar máquinas, perfis falsos e interações automatizadas em uma falsa aparência de participação popular.
O papel do TSE nas eleições de 2026
A regulamentação do Tribunal Superior Eleitoral estabelece que determinadas plataformas devem detalhar procedimentos de transparência, prevenção de riscos e resposta a situações que possam comprometer a integridade eleitoral.
Entre as exigências estão informações sobre mecanismos de detecção de padrões coordenados entre contas e medidas destinadas a interromper ou limitar a atuação de redes consideradas inautênticas.
As plataformas também precisam apresentar procedimentos relacionados à moderação de conteúdos capazes de afetar a integridade do processo eleitoral e mecanismos para lidar com atividades automatizadas que possam indicar disparos em massa.
As regras alcançam, em determinadas condições, redes sociais, serviços de mensageria com canais públicos, plataformas de vídeo, mecanismos de busca e serviços de inteligência artificial generativa com relevância para a circulação de conteúdo político-eleitoral.
A existência dessas regras, porém, não significa que todas as operações serão identificadas imediatamente.
A própria regulamentação prevê que a não detecção de uma determinada rede não representa, por si só, descumprimento das obrigações. Isso demonstra a complexidade técnica envolvida na identificação de estruturas que procuram esconder sua atuação.
Crédito: Agência Brasil



