Atletas relatam meses sem pagamento e dificuldades pessoais; clube diz que está quitando dívidas deixadas por gestões anteriores
Crise no João Hora: salários atrasados e incerteza entre atletas
Pouco mais de um mês após o encerramento da temporada, o Club Sportivo Sergipe volta a enfrentar uma crise financeira que afeta diretamente seus jogadores e funcionários. O lateral-direito Tony Maraial e o meia Birungueta denunciaram à equipe do Globo Esporte SE que estão com salários atrasados desde o ano passado e cobram da diretoria uma posição sobre a situação.
O problema, porém, não é novo. Em março deste ano, um grupo de atletas já havia divulgado uma carta aberta denunciando os constantes atrasos de pagamento no clube, que tem o Estádio João Hora de Oliveira, em Aracaju, como sede.

Tony Maraial: lesão, cirurgias e medo de aposentadoria precoce
Natural de Maraial (PE), o lateral Tony Maraial vive um momento difícil. Lesionado desde o Clássico Maior, em fevereiro de 2024, o jogador passou por cirurgia, mas uma nova avaliação médica em novembro constatou a necessidade de outro procedimento.
Sem condições de arcar com o tratamento, ele afirma que depende de ajuda de amigos e familiares para sobreviver.
“Não estamos aqui para aparecer. Todos os atletas precisam que o clube se manifeste e nos ajude. Eu venho pedindo meus salários atrasados desde o ano passado e uma cirurgia para eu poder trabalhar. Toda a direção que assume não dá respaldo para nós. Tenho minha família, minhas contas e tudo para fazer. Estou passando por uma humilhação”, desabafou o lateral.
A demora na realização do novo procedimento preocupa Tony, que teme ver sua carreira interrompida antes do tempo.
“Todos os dias eu venho pedindo pelo amor de Deus para eles tentarem cumprir apenas com o que é certo para eu conseguir voltar a trabalhar. Meu maior medo é me aposentar precocemente. Eu não sei fazer mais nada a não ser jogador de futebol”, disse.
Birungueta vira motorista por aplicativo para sustentar a família
O meia Birungueta, natural de Campina Grande (PB), vive situação semelhante. Contratado em 2023, o jogador decidiu trabalhar como motorista por aplicativo a partir de junho deste ano, após perceber que o clube não conseguiria cumprir os compromissos salariais.
“Comecei em junho quando começaram as suspeitas de não pagarem os nossos salários. Graças a Deus todo o trabalho dignifica o homem e eu não tenho vergonha nenhuma. É muito difícil se expor dessa forma, mas estamos pedindo por socorro”, relatou o jogador.
Além da questão financeira, Birungueta afirma que enfrenta dificuldades para manter as despesas domésticas e cuidar da família.
“Tenho uma esposa grávida que precisa fazer exames, tenho um filho autista que preciso dar suporte financeiro e estou de mãos atadas como vários outros jogadores. Não estamos cobrando o clube em si, mas as pessoas que assumiram a gestão e não cumprem os compromissos”, desabafou.
Mudanças na diretoria e promessa de reorganização financeira
A instabilidade administrativa também ajuda a explicar parte do problema. Em julho deste ano, o então presidente Júnior Torres renunciou ao cargo, e Clóvis Barbosa foi escolhido em reunião extraordinária do Conselho para comandar a gestão executiva.
Mesmo após reuniões e tentativas de diálogo, os atletas afirmam que não houve avanço nas negociações.
“Tentamos entrar em contato, fizemos algumas reuniões e nada surtiu efeito. Nada que mude nossa situação e eles sintam nossa dor”, declarou Birungueta.
Clube promete quitar pendências e confirma cirurgia de Tony
Em nota oficial, o Club Sportivo Sergipe reconheceu os atrasos e afirmou que a atual diretoria está trabalhando para resolver as dívidas herdadas de gestões anteriores.
O comunicado também confirmou que Tony Maraial será submetido ao novo procedimento cirúrgico nesta sexta-feira (18), com acompanhamento médico custeado pelo clube.
“A atual gestão, desde sua chegada, vem enfrentando e solucionando gradualmente pendências financeiras deixadas por administrações anteriores, incluindo casos específicos de atletas com situações médicas e contratuais em aberto”, diz o texto.
O presidente Clóvis Barbosa também assegurou que a formação do elenco para a próxima temporada só ocorrerá após a quitação completa das dívidas com o atual grupo.
“A montagem do elenco para a próxima temporada só ocorrerá após a quitação total dos compromissos pendentes com o atual grupo de atletas, reforçando o comprometimento da gestão com a responsabilidade financeira e o respeito ao trabalho de todos”, afirmou o clube.
Expectativas e incertezas
Enquanto aguardam uma solução definitiva, os jogadores seguem enfrentando dificuldades financeiras e emocionais. Muitos temem que o problema se repita em 2025, especialmente diante da falta de recursos e do histórico de atrasos no clube.
A torcida, por sua vez, demonstra preocupação com o futuro do time, que precisa de estabilidade para iniciar o planejamento da nova temporada.
Entre promessas, dívidas e desconfiança, o Sergipe tenta reencontrar o equilíbrio administrativo e esportivo que o consagrou como um dos clubes mais tradicionais do futebol sergipano.



