Lucas Gabriel, de 23 anos, teve o tratamento interrompido por 20 dias por falta de quimioterápico; família denuncia descaso do Estado
A morte de Lucas Gabriel de Oliveira Santos, de 23 anos, morador do município de Lagarto, no interior de Sergipe, no último dia 22 de julho, expôs novamente a fragilidade da política pública de saúde no estado, especialmente no tratamento oncológico. Diagnosticado com leucemia aguda em janeiro, o jovem faleceu após uma grave piora do quadro clínico, provocada por uma interrupção de cerca de 20 dias no fornecimento do quimioterápico necessário para seu tratamento.
Lucas havia concluído com sucesso os três primeiros ciclos de quimioterapia. No entanto, ao se apresentar para dar início ao quarto ciclo, foi informado que o medicamento não estava disponível. Sem alternativa, a família permaneceu cinco dias no Hospital de Urgências de Sergipe Governador João Alves Filho (Huse), em Aracaju, e depois foi orientada a voltar para casa.
“Ficamos cinco dias no hospital, depois fomos para casa, e só conseguimos voltar após mais de duas semanas. Nesse meio tempo, a leucemia dele, que estava em 2%, subiu para 63%. Mesmo com a quimioterapia mais forte, o corpo dele já estava muito debilitado. A doença avançada junto com a medicação pesada sobrecarregou os órgãos, e ele não resistiu”, relatou Edilma Oliveira, mãe de Lucas.

Medicamento indisponível e omissão do poder público
A ausência do quimioterápico no momento mais crítico do tratamento comprometeu completamente o prognóstico de Lucas, cuja doença estava, até então, controlada. Com apenas 2% de células leucêmicas no último exame, o jovem era um forte candidato à cura. Três doadores de medula óssea já haviam sido mapeados, incluindo sua irmã Larissa, 100% compatível.
O que era esperança se transformou em revolta. A família afirma que em nenhum momento recebeu explicações ou apoio por parte do governo estadual ou da Prefeitura de Lagarto. O silêncio das autoridades agravou ainda mais o sentimento de abandono.
“Meu irmão tinha chances reais de viver, estava respondendo bem ao tratamento. O que tirou a vida dele foi a omissão, a burocracia e a falta de humanidade do sistema. Ninguém do governo falou com a gente, ninguém do município apareceu”, disse Laís, uma das irmãs de Lucas. Ao lado da irmã Lilian, as duas gravaram um vídeo denunciando a situação e pedindo justiça.
Nota da Secretaria de Estado da Saúde
Em nota oficial, a Secretaria de Estado da Saúde (SES) lamentou a morte de Lucas e manifestou solidariedade à família. O órgão afirmou que o jovem estava sob acompanhamento médico e multidisciplinar no Huse, e que o óbito ocorreu durante nova internação, por complicações decorrentes do câncer e do próprio tratamento com quimioterapia.
A nota, no entanto, não menciona os relatos de desabastecimento do quimioterápico e não explica os motivos da falha no fornecimento, nem os procedimentos adotados para evitar que o caso se repetisse com outros pacientes.
Reação de entidades e sociedade civil
A morte de Lucas provocou comoção em Sergipe e reabriu o debate sobre os recorrentes problemas no fornecimento de medicamentos oncológicos na rede pública estadual. Organizações de pacientes, entidades de defesa da saúde e médicos cobram providências imediatas para que situações como essa não voltem a ocorrer.
A Abrea (Associação Brasileira de Pacientes com Doenças Raras e Crônicas) emitiu um comunicado exigindo do governo estadual maior transparência nos estoques de medicamentos de alto custo e maior agilidade na reposição de insumos essenciais para o tratamento de câncer.
“Não é admissível que pacientes com prognóstico positivo tenham suas vidas interrompidas por falhas logísticas ou administrativas. Isso é uma violação do direito à saúde e à vida”, diz a entidade.
Déficit estrutural e falta de previsibilidade
Profissionais da saúde que atuam no sistema público de Sergipe afirmam que a falta de medicamentos, especialmente os oncológicos, é um problema crônico, agravado por processos burocráticos, baixa previsibilidade de compras e falhas nos contratos de fornecimento.
O Hospital de Urgências de Sergipe é referência no tratamento de câncer no estado, mas lida constantemente com dificuldades para manter estoques regulares de fármacos de alto custo. A consequência direta é a interrupção de tratamentos, perda de eficácia clínica e aumento no número de mortes evitáveis.
“É um sistema que vive no limite. A gente faz o possível com os recursos disponíveis, mas não tem como fazer milagre se o medicamento não chega”, desabafa, sob condição de anonimato, uma enfermeira do setor de oncologia do Huse.
Família transforma dor em luta por mudança
Ainda em luto, a família de Lucas tem feito uso das redes sociais para cobrar respostas do poder público e alertar sobre os riscos que milhares de pacientes enfrentam todos os dias em Sergipe.
As irmãs do jovem iniciaram uma mobilização para reunir relatos de outros pacientes que enfrentaram descontinuidade de tratamento, com a intenção de acionar o Ministério Público Estadual e pressionar por uma auditoria no fornecimento de medicamentos oncológicos.
“Nosso irmão não volta mais, mas a nossa dor não pode ser em vão. Queremos garantir que ninguém mais perca a vida por falta de remédio”, afirmou Larissa, emocionada.
Apelo por políticas públicas eficazes
O caso de Lucas Gabriel evidencia um problema mais amplo: a ausência de uma política estadual eficaz para o tratamento do câncer. Apesar do avanço em alguns programas federais e da ampliação de centros de referência, Sergipe ainda convive com uma estrutura insuficiente para lidar com a demanda crescente por terapias complexas.
Especialistas pedem investimentos não apenas em infraestrutura e medicamentos, mas também em gestão eficiente, transparência no uso dos recursos públicos e mecanismos rigorosos de controle de qualidade na saúde.
Para os familiares de Lucas, a resposta precisa vir com medidas concretas e urgentes. “Não queremos mais discursos ou notas frias. Queremos mudança, queremos compromisso real com a vida das pessoas”, finalizou Edilma, a mãe do jovem.



