Mitidieri e o dilema do poder: quem muito abarca, pouco abraça

Entre afagos públicos e bastidores movimentados, o governador testa os limites de suas alianças e a paciência de seus aliados em Sergipe

Foto: Reprodução Fan F1

Na política, há ditados que resistem ao tempo porque dizem mais do que muitos discursos. Um deles, e talvez o mais apropriado para o momento que vive o governador de Sergipe, Fábio Mitidieri (PSD), é aquele que diz: “Quem muito abarca, pouco abraça.”

Nos últimos dias, a cena política sergipana ganhou um enredo curioso. Mitidieri, conhecido por seu estilo conciliador e pragmático, tem multiplicado gestos de aproximação com nomes do Partido dos Trabalhadores (PT). As trocas de sorrisos, antes raras e discretas, agora acontecem à luz do dia e com direito a registro fotográfico.

O que para uns é apenas cortesia política, para outros soa como cálculo. Afinal, em ano pré-eleitoral, ninguém dá abraço de graça.

Um discurso com mensagem nas entrelinhas

Em entrevista concedida no início do mês, Mitidieri tentou equilibrar o tom entre fidelidade e abertura. “Nem aceito nem rejeito. Estou dizendo que, no meu momento e na forma como estou construindo a minha caminhada, eu tenho pessoas que estão ao meu lado desde o início e a minha chapa estadual deve ser montada com as pessoas que estão comigo desde o início. Isso eu não abro mão”, afirmou.

A frase, aparentemente firme, carrega um duplo sentido. Ao reafirmar lealdade aos antigos aliados, o governador também deixa a porta entreaberta para novas parcerias, especialmente com o PT, que ainda tem grande influência no eleitorado sergipano e, sobretudo, a força simbólica de carregar o nome de Lula.

O PT observa, escuta e evita se comprometer

Entre os petistas, o movimento é acompanhado com atenção e certo ceticismo. O deputado federal João Daniel (PT), durante o evento Sergipe É Aqui, em Maruim, garantiu que o diálogo com o governador é tranquilo. “Não sentimos dificuldade de diálogo entre o PT e Mitidieri”, disse, mas logo acrescentou: “A situação estadual do partido segue em aberto. Não há decisão e o PT não tem problema em lançar candidatura própria ao Palácio dos Despachos.”

O recado foi sutil, mas claro. O partido conversa, mas não se compromete.

Sorrisos e sinais no mesmo palanque

Em Divina Pastora, uma cena chamou atenção. O senador Rogério Carvalho (PT), presidente estadual do partido, foi fotografado ao lado do governador Fábio Mitidieri. Sorrisos largos e aparente descontração marcaram o encontro, que rapidamente se espalhou pelos bastidores da política sergipana.

Segundo relatos, o contato foi breve, mas natural. Ainda assim, suficiente para gerar especulações sobre uma aproximação mais estratégica entre os dois. Afinal, em política, uma foto vale mais que mil palavras.

O sonho de unir PSD e PT

Para Mitidieri, uma aliança com o PT seria o cenário ideal. Uniria forças locais, neutralizaria o peso da polarização nacional e lhe daria um selo poderoso: o de “candidato de Lula”. Em um estado onde o presidente mantém forte popularidade, tal título seria um trunfo eleitoral importante.

Mas o caminho até essa união está longe de ser simples.

Os riscos de abarcar demais

Nos bastidores, circulam rumores de que um grupo atualmente aliado do governador estaria insatisfeito e poderia desembarcar de sua base para formar uma candidatura alternativa com o PT. Essa movimentação abriria espaço para uma terceira via, o que agrada as alas mais radicais do petismo sergipano e colocaria ainda mais pressão sobre o governador.

Caso o PSD avance nessa aproximação, Mitidieri terá de lidar com um desafio considerável: como acomodar novos parceiros sem desagradar os antigos?

Talvez precise renegociar espaços, rever acordos e até sacrificar nomes já considerados certos na montagem da chapa majoritária, como a segunda vaga ao Senado, o apoio presidencial e até a vice-governadoria. E é aí que o ditado volta a fazer sentido: quanto mais braços se abrem, menor é a firmeza do abraço.

O equilíbrio entre pragmatismo e coerência

Mitidieri busca se consolidar como um gestor pragmático, disposto a dialogar com diferentes grupos políticos. Porém, há uma fronteira delicada entre o pragmatismo e o oportunismo. Ao tentar agradar todos os lados, o governador corre o risco de diluir sua própria identidade e enfraquecer sua base de apoio.

No fim das contas, a política exige escolhas, e poucas são indolores.

O jogo que ainda está sendo jogado

Por enquanto, o tabuleiro político de Sergipe segue indefinido. O PT observa, o PSD costura e Mitidieri tenta equilibrar todos os pratos. É um jogo que exige habilidade, paciência e, principalmente, limites.

Afinal, como ensina a sabedoria popular, quem muito abarca, pouco abraça. E, na política sergipana, um abraço mal calculado pode custar caro.

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