Queda nos setores de veículos, alimentos e vestuário puxa resultado negativo; indústria ainda sente efeitos dos juros altos.

A produção industrial brasileira registrou queda de 0,5% em maio de 2025, na comparação com o mês anterior, segundo dados divulgados nesta terça-feira (2) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Este é o segundo mês consecutivo de retração no setor, após o recuo de 0,2% em abril, e acende um sinal de alerta sobre a trajetória da indústria no ano.
De acordo com a Pesquisa Industrial Mensal (PIM), 13 das 25 atividades pesquisadas apresentaram desempenho negativo, com destaque para o setor de veículos automotores, reboques e carrocerias, que recuou 3,9% e foi o principal responsável pelo resultado geral.
Outros segmentos relevantes que puxaram o índice para baixo foram coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (-1,8%), produtos alimentícios (-0,8%), produtos de metal (-2,0%), bebidas (-1,8%), confecção de artigos do vestuário e acessórios (-1,7%) e móveis (-2,6%).
Por outro lado, a indústria extrativa apresentou crescimento de 0,8% e foi o principal destaque positivo do mês, amenizando parcialmente o impacto das perdas nos demais setores.
Juros altos e crédito mais caro afetam o setor
Especialistas apontam que o desempenho fraco da indústria brasileira nos últimos meses está fortemente ligado ao cenário de juros elevados no país. A taxa básica de juros (Selic), atualmente em 10,50% ao ano, encarece o crédito para empresas e consumidores, reduzindo investimentos e a demanda por bens duráveis como veículos e eletrodomésticos que dependem do financiamento.
Segundo analistas econômicos ouvidos após a divulgação dos dados, o atual ciclo de alta dos juros compromete a recuperação da indústria, que vinha registrando avanços no primeiro trimestre de 2025. “Os dados de abril e maio revertem parte do crescimento observado no início do ano e sugerem que o setor industrial poderá perder tração no segundo semestre”, avaliou um economista do mercado financeiro.
Setores mais afetados
O recuo expressivo de 3,9% na produção de veículos automotores é emblemático do momento delicado que o setor vive. A indústria automotiva tem sofrido com a combinação de juros altos, estoques elevados e desaceleração da demanda, tanto no mercado interno quanto nas exportações.
Além disso, a queda em setores como produtos alimentícios (-0,8%) e bebidas (-1,8%) indica uma retração também no consumo das famílias, que seguem cautelosas diante do encarecimento do crédito e da inflação ainda pressionada em alguns segmentos.
O setor de móveis, com recuo de 2,6%, também foi afetado pela menor disposição dos consumidores para adquirir bens de maior valor agregado, o que reflete um padrão já observado em momentos anteriores de aperto monetário.
Comparação anual mostra alta, mas ritmo preocupa
Apesar da retração na comparação mensal, a produção industrial brasileira cresceu 3,3% em relação a maio de 2024, o que mostra que a indústria ainda mantém um desempenho positivo no comparativo anual. No acumulado de 12 meses, a alta é de 2,8%.
Com esses resultados, a indústria nacional se encontra 2,1% acima do nível registrado em fevereiro de 2020, antes da pandemia de Covid-19, mas ainda 15% abaixo do pico histórico de produção, alcançado em maio de 2011.
Esse dado evidencia que, embora tenha havido uma recuperação após o período mais crítico da pandemia, o setor ainda enfrenta dificuldades estruturais para retomar seu pleno potencial.
Perspectiva para o restante de 2025 é de desaceleração
A tendência apontada pelos números recentes é de que a indústria brasileira enfrente um segundo semestre mais desafiador. A manutenção da taxa Selic em patamares elevados, combinada com incertezas econômicas globais e internas, deve continuar pressionando a atividade.
Além disso, há um risco adicional ligado à instabilidade no mercado de trabalho e ao aumento da inadimplência, que impactam diretamente o consumo das famílias um dos principais motores da indústria de transformação.
Mesmo setores que vinham se destacando, como o de máquinas e equipamentos, começam a demonstrar sinais de desaceleração diante do encarecimento do crédito e da menor confiança dos empresários.
Especialistas ressaltam que, para reverter essa tendência, seria necessário um cenário macroeconômico mais favorável, com redução da taxa de juros e estímulos à produção e ao investimento.



