
O senador Alessandro Vieira (MDB/SE) afirmou que o Brasil não enfrenta de forma efetiva o crime organizado por falta de decisão política, estrutura institucional e responsabilização de autoridades. A declaração foi feita nesta quarta-feira (22), durante entrevista ao Flow Podcast, conduzida pelo apresentador Igor 3K e pelo jornalista Felipe Moura Brasil.
Relator da CPI do Crime Organizado, o parlamentar destacou que a percepção da sociedade sobre o tema ainda é limitada, o que dificulta o enfrentamento das estruturas mais complexas. “O brasileiro acha que crime organizado é preto, pobre na favela. Quando aparece o mauricinho tomando whisky em Paris, chamam de investidor”, afirmou, ao defender a necessidade de ampliar o foco para redes financeiras e políticas.
Durante a entrevista, Alessandro também criticou a cultura de impunidade no país. “A cultura de impunidade e poder no Brasil é fundamental. É por conta dela que você não resolve nada importante”, disse. Segundo ele, a reação de autoridades após a apresentação do relatório da CPI demonstrou o impacto das conclusões. “A primeira percepção da reação dos ministros após a apresentação do relatório da CPI do Crime Organizado foi de que eles sentiram o golpe. Eles nunca estiveram tão perto de serem responsabilizados”, declarou.
Relatório rejeitado e críticas a autoridades
O senador sugeriu, em seu relatório, o indiciamento de ministros do Supremo Tribunal Federal, entre eles Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes, além do procurador-geral da República, Paulo Gonet, por crimes de responsabilidade. O documento, no entanto, foi rejeitado pela comissão por seis votos a quatro.
Mesmo com a rejeição, Alessandro afirmou que o objetivo foi provocar debate institucional. “Ou a gente enfrenta as coisas e tem uma esperança de mudar o Brasil, ou a gente se acomoda do jeito que está sabendo que não vai mudar nada”, pontuou.
Ele também alegou ter sofrido tentativas de intimidação durante o processo. “Não tem margem de dúvida constitucional. A gente não está discutindo uma questão jurídica, a gente está discutindo uma tentativa de intimidação. Eles tentaram intimidar com recados prévios, eles tentaram intimidar durante sessão do Supremo”, afirmou.
Falta de estrutura e críticas ao sistema
Outro ponto levantado pelo senador foi a falta de estrutura do Estado para combater o crime organizado. Segundo ele, órgãos estratégicos operam com déficit de pessoal e orçamento insuficiente.
“O Brasil não enfrenta o crime organizado porque falta decisão política para colocar orçamento e servidor suficiente. A Receita Federal tem 22 mil cargos vagos; Coaf não tem estrutura própria; Abin só tem 22% dos cargos preenchidos. É um país que não combate a sério o crime”, declarou.
Alessandro também citou dificuldades enfrentadas durante investigações no Rio de Janeiro, apontando entraves institucionais e políticos. Para ele, há uma desconexão entre a realidade das organizações criminosas e as respostas adotadas pelo poder público.
Defesa de mudanças institucionais
O senador defendeu ainda mudanças no funcionamento das instituições, incluindo alterações nas regras do STF. “É preciso encontrar um caminho de mudança da Constituição para alterar a idade mínima de entrada no Supremo ou diminuir o tempo de permanência”, sugeriu.
Ao longo da entrevista, ele reforçou que sua atuação no tema é contínua. “Eu faço o enfrentamento de problemas que acontecem com os ministros desde 2019. Eu tenho uma constância no que falo e faço, não é algo eleitoreiro”, afirmou.
Por fim, Alessandro Vieira destacou que o combate ao crime organizado passa pelo enfrentamento direto de estruturas de poder e financiamento. “A corrupção não é ideológica, não é de direita nem de esquerda. É ambição, é dinheiro, é impunidade. É ganância demais”, concluiu.



