Economia dos EUA encolhe no 1º trimestre com impacto das tarifas de Trump e incerteza fiscal

Revisão do PIB aponta retração de 0,5% entre janeiro e março, a primeira desde 2022; consumo cai e dívida pública preocupa.

A economia dos Estados Unidos sofreu uma retração de 0,5% no primeiro trimestre de 2025, segundo dados revisados do Departamento do Comércio. Trata-se da primeira queda trimestral do Produto Interno Bruto (PIB) americano desde 2022 e o dobro da previsão anterior, que estimava uma queda de 0,2%.

O resultado reflete os primeiros impactos das novas tarifas impostas pelo presidente Donald Trump, além da crescente incerteza fiscal em torno da nova peça orçamentária do governo, ainda em discussão no Senado.

Com os dados ajustados sazonalmente e descontada a inflação, a desaceleração revela uma economia pressionada por fatores internos e externos – em especial o aumento inesperado nas importações, motivado por uma corrida para antecipar compras antes das tarifas, e a retração nos gastos dos consumidores, que atingiram o nível mais baixo dos últimos quatro anos.

Política comercial agressiva preocupa mercado

As tarifas impostas por Donald Trump fazem parte de uma estratégia de “proteção da indústria americana”, mas vêm gerando ruídos no mercado global e afetando diretamente a dinâmica interna do país. O aumento de importações para evitar os custos adicionais resultou em desequilíbrios comerciais, enquanto a incerteza sobre o futuro das tarifas tem inibido o consumo e travado investimentos.

“É um reflexo direto de decisões protecionistas que desorganizam a lógica de mercado”, avaliou a analista econômica Carol Price, da Cambridge Economic Review.

Esse é apenas um dos efeitos visíveis no curto prazo. Nos bastidores, cresce a preocupação com os impactos de longo prazo dessas medidas sobre a competitividade americana e a estabilidade fiscal do país.

Novo orçamento de Trump amplia riscos fiscais

Além das tarifas, o outro fator que pressiona o cenário econômico é a proposta orçamentária do governo Trump. Estimada para gerar mais US$ 3,8 trilhões em dívidas públicas adicionais, a nova peça orçamentária ainda precisa ser aprovada pelo Senado – e enfrenta resistência.

O plano prevê ampliação de gastos em áreas como defesa e assistência a veteranos de guerra, ao mesmo tempo em que corta impostos e reduz financiamentos em setores como ciência, pesquisa e saúde pública. Uma das mudanças mais polêmicas atinge diretamente o Medicaid, o programa federal de seguro de saúde para pessoas de baixa renda. Com as alterações, cerca de 8 milhões de americanos devem perder o acesso ao benefício.

Mesmo diante das críticas, Trump afirma que a proposta vai “criar empregos, reduzir impostos e garantir o crescimento econômico”. O presidente ainda espera que a votação no Senado aconteça até o dia 4 de julho, embora partes do texto tenham sido derrubadas pelo Legislativo e precisarão ser reformuladas.

Pressão sobre o Tesouro e risco de calote técnico

Com a elevação acelerada da dívida pública, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, anunciou a prorrogação de medidas extraordinárias de gestão de caixa para evitar um colapso nos pagamentos do governo. Segundo ele, sem um aumento ou suspensão do teto da dívida, os EUA correm o risco de não conseguir honrar compromissos básicos nos próximos meses.

A crise do teto da dívida é recorrente na política americana, mas volta à tona em um momento especialmente delicado: com crescimento em queda, inflação ainda acima da meta do Federal Reserve, e ambiente político polarizado.

“Estamos operando no limite. Qualquer erro de cálculo pode custar caro para a credibilidade dos EUA nos mercados internacionais”, alertou Bessent.

Reação do mercado e da Casa Branca

A retração do PIB e a piora fiscal acenderam alertas em Wall Street. Analistas de grandes bancos passaram a revisar para baixo suas projeções de crescimento para o ano, e alguns já falam em recessão técnica, caso o segundo trimestre também apresente retração.

Trump, por sua vez, voltou a atacar o Federal Reserve e seu presidente, Jerome Powell. Em declarações recentes, o presidente norte-americano acusou o Fed de ser “lento demais” na resposta à desaceleração e sugeriu que “tomará providências” caso Powell não contribua para “proteger empregos americanos”.

As falas aumentaram o temor de ingerência política sobre o banco central americano, que historicamente mantém autonomia operacional. A disputa entre Casa Branca e Fed pode aprofundar o clima de instabilidade econômica e política nos EUA.

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