
Especialistas explicam como o aquecimento das águas do Oceano Pacífico interfere no clima, quais regiões são mais afetadas e por que Sergipe também pode sentir os efeitos
Você provavelmente já ouviu falar em El Niño sempre que o assunto é calor intenso, seca ou chuvas acima da média. Mas afinal, o que é esse fenômeno climático? Como ele se forma? E por que um aquecimento das águas do Oceano Pacífico consegue alterar o clima em diferentes partes do planeta, inclusive no Brasil?
Essas são perguntas que costumam surgir sempre que meteorologistas alertam para a chegada do El Niño. Em 2026, o tema voltou ao centro das atenções após institutos nacionais e internacionais confirmarem o retorno do fenômeno, com possibilidade de intensificação ao longo do segundo semestre e permanência até 2027.
Embora seja um fenômeno natural conhecido pela ciência há décadas, seus impactos podem ser potencializados pelo aquecimento global, tornando eventos extremos mais frequentes e intensos.
O que é o El Niño?
O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial.
Esse aquecimento modifica a circulação da atmosfera em várias partes do planeta, alterando o comportamento dos ventos, das frentes frias e da formação de nuvens. Como consequência, algumas regiões passam a registrar excesso de chuva, enquanto outras enfrentam estiagens prolongadas e temperaturas acima da média.
O fenômeno faz parte do chamado ENOS (El Niño-Oscilação Sul), um sistema climático composto por três fases:
- El Niño (aquecimento das águas);
- La Niña (resfriamento das águas);
- Condição neutra.
Como o El Niño se forma?
Em condições normais, os ventos alísios empurram as águas superficiais aquecidas do Oceano Pacífico em direção à Ásia e à Oceania.
Quando esses ventos enfraquecem, a água quente permanece concentrada na região central e leste do Pacífico, elevando sua temperatura acima da média histórica.
Esse aquecimento interfere diretamente na circulação atmosférica global, alterando os padrões de chuva e temperatura em diversos continentes.
Para que um episódio seja oficialmente caracterizado como El Niño, a temperatura da superfície do mar precisa permanecer pelo menos 0,5°C acima da média durante vários meses consecutivos.
Qual a diferença entre El Niño e La Niña?
Apesar de fazerem parte do mesmo sistema climático, os dois fenômenos produzem efeitos praticamente opostos.
| El Niño | La Niña |
|---|---|
| Aquecimento das águas do Pacífico | Resfriamento das águas do Pacífico |
| Tendência de temperaturas mais altas | Tendência de temperaturas mais baixas |
| Mais chuva no Sul | Menos chuva no Sul |
| Menos chuva em parte do Norte e Nordeste | Mais chuva em parte do Norte e Nordeste |
| Maior risco de estiagens | Maior chance de enchentes em algumas regiões |
Como o El Niño afeta o Brasil?
Os efeitos não são iguais em todo o país.
Isso ocorre porque o Brasil possui dimensões continentais e diferentes sistemas atmosféricos atuam simultaneamente.
De maneira geral, durante episódios de El Niño observa-se:
Região Sul
- Chuvas acima da média;
- Maior risco de enchentes;
- Possibilidade de deslizamentos.
Sudeste
- Períodos de calor intenso;
- Alterações na distribuição das chuvas.
Centro-Oeste
- Temperaturas elevadas;
- Baixa umidade do ar;
- Maior risco de queimadas.
Norte
- Redução das chuvas;
- Queda no nível dos rios;
- Aumento da seca.
Nordeste
- Redução das precipitações em parte da região;
- Aumento das temperaturas;
- Possibilidade de agravamento da estiagem, principalmente no semiárido.
O que pode acontecer em Sergipe?
Embora Sergipe esteja no litoral do Nordeste, o estado também pode sentir os reflexos do fenômeno.
Segundo meteorologistas, episódios de El Niño costumam favorecer uma redução das chuvas durante períodos importantes do calendário climático nordestino, principalmente quando o fenômeno apresenta intensidade moderada ou forte.
Isso pode provocar:
- temperaturas mais elevadas;
- períodos secos mais prolongados;
- impactos sobre reservatórios;
- dificuldades para agricultores;
- aumento do risco de queimadas.
Os efeitos variam conforme a intensidade do fenômeno e podem ser diferentes entre o litoral e o interior do estado.
Agricultura é um dos setores mais afetados
A agricultura costuma sentir rapidamente os impactos do El Niño.
A redução das chuvas pode comprometer culturas agrícolas, diminuir a produtividade das lavouras e afetar diretamente pequenos produtores rurais.
Quando há escassez hídrica prolongada, também aumentam os custos de irrigação e de produção agrícola.
Pode afetar o preço dos alimentos?
Sim.
Se ocorrer redução significativa da produção agrícola em determinadas regiões, a oferta de alguns alimentos diminui.
Isso pode provocar aumento nos preços de produtos como milho, feijão, frutas, hortaliças e outros itens que dependem das condições climáticas.
Além disso, impactos sobre a pecuária também podem influenciar os custos de produção.
Reservatórios e geração de energia
Menos chuva significa menor volume de água nos reservatórios.
Como boa parte da energia elétrica brasileira ainda depende das hidrelétricas, períodos prolongados de estiagem podem exigir maior utilização de usinas termelétricas, cujo custo é mais elevado.
Esse cenário pode aumentar os gastos com geração de energia e pressionar as tarifas em determinados períodos.
Aquecimento global pode intensificar os efeitos?
Especialistas explicam que o El Niño não é causado pelas mudanças climáticas.
Entretanto, o aquecimento global pode tornar seus impactos ainda mais severos.
Com temperaturas médias do planeta em constante elevação, eventos extremos — como ondas de calor, secas prolongadas e chuvas intensas — tendem a ocorrer com maior frequência e intensidade.
Por isso, cientistas monitoram continuamente a evolução do fenômeno.
Qual é a situação atual?
Os principais centros meteorológicos internacionais e brasileiros confirmaram o retorno do El Niño em 2026.
Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e o Centro de Previsão Climática (CPC/NOAA), o fenômeno já está estabelecido e deve persistir ao longo do segundo semestre, podendo ganhar intensidade durante a primavera e influenciar o clima até 2027.
Apesar disso, os especialistas ressaltam que ainda não é possível determinar com precisão todos os impactos locais, pois a intensidade e a duração do evento continuam sendo monitoradas.
Entender o fenômeno ajuda na prevenção
Embora o El Niño seja um fenômeno natural, conhecer seu funcionamento ajuda governos, produtores rurais, empresas e a população a se prepararem para seus possíveis impactos.
O monitoramento climático permite antecipar medidas para reduzir prejuízos na agricultura, fortalecer ações de defesa civil, gerenciar recursos hídricos e planejar políticas públicas diante de períodos de seca ou de chuvas intensas.
Em um cenário de mudanças climáticas e eventos extremos cada vez mais frequentes, compreender como funciona o El Niño tornou-se uma ferramenta importante para a adaptação e a prevenção.
Fontes consultadas
- Instituto Nacional de Meteorologia (INMET)
- Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE)
- Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden)
- Climate Prediction Center (NOAA)



