Os Correios, aquela estatal que já foi sinônimo de pontualidade no século passado e de fila no século atual, decidiu colocar o capacete, pegar o extintor e correr para apagar um incêndio financeiro de proporções dignas de novela das oito. A empresa apresentou ao Tribunal de Contas da União um plano de recuperação que prevê um empréstimo de 20 bilhões de reais e um Programa de Demissões Voluntárias para tentar convencer ao menos 10 mil funcionários a pedir para sair. É o tipo de plano que lembra aquela pessoa que decide emagrecer cortando o café da manhã, o almoço, o jantar e, se der tempo, a esperança.

O documento foi revelado por O Globo e confirmado por outros veículos como Metrópoles e CNN Brasil. A Gazeta do Povo também procurou o TCU e os Correios para entender melhor a situação, mas, assim como acontece com parte das entregas da estatal, a resposta ainda não chegou.
O cenário é bem pouco animador. No primeiro semestre deste ano, a empresa registrou prejuízo de 4,37 bilhões de reais, acumulando perdas desde 2015. Dá para dizer que os Correios estão numa dieta, mas a única coisa que conseguem perder é dinheiro. O presidente da estatal, Emmanoel Rondon, chegou a dizer que existe alguma expectativa de lucro somente em 2027. Até lá, o clima é de sobrevivência pura.
Críticas, riscos e até viagem internacional na tentativa de salvar a estatal
A oposição não demorou a reagir ao possível empréstimo bilionário. O deputado federal Alberto Neto, do PL, protocolou uma representação no TCU alegando que a ideia pode ferir a Lei de Responsabilidade Fiscal. Na prática, ele pediu que o tribunal olhe com cuidado para uma matemática que parece ter mais imaginação do que fundamento.
O TCU já trata o plano como de alto risco. E não é difícil entender o motivo. A estatal viu as receitas com encomendas internacionais despencarem mais de 61 por cento no primeiro semestre. A empresa culpa mudanças regulatórias, mas, na prática, o tombo foi tão grande que parece até que o mercado internacional esqueceu onde fica o Brasil no mapa. A arrecadação total ficou em 8,9 bilhões de reais, uma queda de quase 10 por cento em relação ao mesmo período do ano passado. É uma curva descendente tão inclinada que poderia servir de rampa de skate.
Em meio ao caos, uma comitiva dos Correios viajou até Xangai em abril para tentar um financiamento no Novo Banco de Desenvolvimento, conhecido como o banco dos BRICS. A missão foi apresentar o chamado Programa de Modernização e Transformação Ecológica dos Correios, que, pelo andar da carruagem, parece muito mais uma modernização da tentativa de salvar a empresa do que da estrutura em si.
A estratégia inclui vender imóveis e renegociar tudo o que for possível
Além do empréstimo bilionário e das demissões voluntárias, a estatal quer vender imóveis ociosos e renegociar contratos com fornecedores em busca de acordos mais vantajosos. Rondon afirma que todas essas medidas fazem parte de uma agenda de reequilíbrio, baseada em transparência e governança. Só o tempo dirá se isso vai gerar resultado ou se vai acabar como mais um pacote extraviado no caminho.
É importante lembrar que, em 2023, o presidente Lula retirou os Correios da lista de privatizações. Vender a empresa não é uma opção no momento. Já vender o resto do que está sobrando nos armários, aparentemente, é.



